8# ARTES E ESPETCULOS 4.12.13

     8#1 TELEVISO  DEBATE QUE EU GOSTO
     8#2 CINEMA  TALENTO EM CAMPO
     8#3 ARTE  CADA VEZ MAIS PERTO
     8#4 LIVROS  SIM,  POSSVEL
     8#5 MSICA  DYLAN EM TODOS OS CANAIS
     8#6 VEJA RECOMENDA
     8#7 OS LIVROS MAIS VENDIDOS
     8#8 ROBERTO POMPEU DE TOLEDO  BENDITA DERRUBADA

8#1 TELEVISO  DEBATE QUE EU GOSTO
Painis de jornalistas, especialistas e palpiteiros que discutem temas do momento esto entre os programas preferidos do espectador que busca informao. 
BRUNO MEIER

     Lillian Witte Fibe no para quieta. Instantes antes das gravaes do Meninas do J, h trs semanas, a jornalista passa batom, olha-se em um espelho de mo e levanta a barra da cala para arrumar a meia. Faladora, ela se aquieta no terceiro bloco do programa, quando J Soares pe em discusso a pena de morte. As jornalistas Cristiana Lobo, Ana Maria Tahan e Cristina Serra, como o prprio J, so contra. Lillian a princpio no se manifesta, mas, j para o final do bloco, entra na discusso com um "pra a, J". Diz que "racionalmente tambm  contrria  pena capital, mas ressalva: "No sei o que passaria na minha cabea se meu filho fosse sequestrado ou torturado". Depois do programa, J expressa espanto em conversa com a equipe: "Estou surpreso que uma pessoa esclarecida como ela seja a favor". De certo modo, ali mesmo, nos bastidores, realizava-se um dos objetivos do Meninas do J: fomentar o debate entre os espectadores, que idealmente continuam a discusso em seu crculo de relaes. 
     Quadro semanal do talk-show de J Soares, Meninas surgiu em 2005, com a misso temporria de debater as denncias do mensalo, escndalo ento em seu auge. Fez sucesso e se tornou fixo. "Nada atrai mais as pessoas do que um bom bate-papo", diz J. A profuso de programas de debate na TV brasileira confirma essa opinio. "Numa era de redes sociais  que trazem muita bobagem mas tambm muita novidade interessante , a conversa fica natural para o espectador", diz Eugenia Moreyra, diretora da GloboNews, o principal veculo dos programas do gnero. 
     Embora se dedique a entrevistas e no propriamente ao debate, Roda Viva, no ar desde 1986 pela Cultura, de So Paulo, consolidou o modelo de conversao no jornalismo televisivo ao colocar o entrevistado no meio de vrios entrevistadores convidados. Mas o grande marco dos atuais programas de bate-papo  Manhattan Connection, j h vinte anos no ar na TV por assinatura. Ao tempo de seu surgimento, o programa, coordenado de Nova York pelo jornalista Lucas Mendes, pairava sozinho entre uma poro de mesas-redondas dedicadas apenas ao futebol. Por sua nfase na falao, Manhattan Connection foi concebido para ser um programa de rdio, mas Mendes acabou emplacando a ideia no GNT, canal da Globosat, em 1993. "Segui uma tendncia de programas de opinio da TV americana. O formato  bom tanto para o espectador quanto para o patro, porque sai barato", diz Mendes. 
     A opinio mais forte e cida, nos primeiros anos, era sempre a de Paulo Francis, que frequentemente se batia com Caio Blinder  hoje, ao lado de Mendes, o nico da formao original que segue na mesa. A morte de Francis, em 1997, foi um momento de crise de identidade do Manhattan Connection. Mas outros provocadores levaram a tocha adiante  o papel agora cabe a Diogo Mainardi, ex-colunista de VEJA. H trs anos, o programa de novo esteve em perigo: com as reformulaes do GNT, que se voltou decididamente para o pblico feminino, uma conversa s de homens ficou fora de lugar. "Fala com o Alemo", foi o conselho de uma executiva da Globosat a Mendes. O Alemo  Carlos Henrique Schroder, o atual diretor-geral da Globo  mandou a mesa internacional para a GloboNews. A audincia, desde ento, triplicou:  o programa mais visto do canal, com mdia mensal de 4,5 milhes de espectadores. 
     Um bom mediador e participantes sem medo do confronto so parte da receita de um bom show de bate-papo. Atendidas essas exigncias mnimas, existem as mais variadas frmulas. H programas conduzidos apenas por mulheres, como Saia Justa, do GNT. Alguns contam s com um apresentador fixo, variando a cada edio os demais debatedores   o caso do veterano Sem Censura, de Leda Nagle, hoje esquecido na TV Brasil. Na GloboNews, h nove programas de debate. Contrariando o arraigado lugar-comum segundo o qual o jornalismo televisivo  superficial, sobra densidade no cardpio. O programa de Miriam Leito aborda assuntos econmicos na aparncia ridos. Uma das edies mais recentes foi sobre as perspectivas do pr-sal depois do leilo do Campo de Libra, e entre os debatedores estava Graa Foster, presidente da Petrobras. 
     "Nosso espectador quer se educar e fica agradecido quando discutimos os assuntos a fundo", diz William Waack, desde 2000 mediador do Painel. Waack confessa que, de incio, teve dvidas sobre a viabilidade de apresentar debates de uma hora sobre economia e poltica internacional. Painel, no entanto,  hoje a segunda maior audincia do canal, atrs apenas de Manhattan Connection. "Existe demanda por inteligncia na TV. E isso no  sinnimo de chatice", conclui Waack. Tanto na GloboNews quanto no canal aberto da Globo, o tom de conversa casual aos poucos se incorpora tambm  formalidade dos telejornais. Seguindo uma diretriz recente da emissora, os apresentadores se tm permitido dialogar brevemente sobre as notcias. A boa conversa, afinal, informa. 

MENSALO NA MESA
No ano passado, durante o julgamento do mensalo, o site de VEJA criou um instrumento vital para atualizar a discusso sobre os acontecimentos no Supremo Tribunal Federal. Os debates comandados pelo jornalista Augusto Nunes (tambm apresentador do Roda Viva, da TV Cultura) cobriram os principais eventos do julgamento histrico  e voltaram ao ar para discutir os desdobramentos mais recentes, nos quais condenados grados como Jos Genoino e Jos Dirceu afinal foram para a priso. Com a participao regular do historiador Marco Antonio Villa, do colunista Reinaldo Azevedo e do advogado Roberto Podval, entre outros convidados, o programa vem sendo transmitido ao vivo do estdio da redao de VEJA, em So Paulo. O impacto poltico, as tecnicalidades jurdicas, os antecedentes histricos de cada condenao foram examinados. O prprio julgamento, alis, tambm foi transmitido ao vivo pelo site, com auxlio de intervenes e comentrios em texto que explicavam, em tempo real, as falas de cada ministro do STF. At a transmisso da semana passada, na qual os temas foram a sade de Jos Genoino e a inusitada estreia de Jos Dirceu no ramo hoteleiro, os participantes falaram por 2240 minutos, ou 38 horas, sobre o mensalo. Com clareza e lucidez, a condenao da corte mxima do pas ao maior esquema de corrupo da histria foi analisada por esse time de vigilantes. 


8#2 CINEMA  TALENTO EM CAMPO
O desenho em 3D Um Time Show de Bola, do argentino Juan Jos Campanella, rivaliza em tcnica, diverso e arte com as animaes da Pixar ou da DreamWorks.
ISABELA BOSCOV

     Amadeo  encabulado e magrinho, e tem o ar resignado dos que acham que a briga j est perdida antes de comear. No fosse a torcida de Laura, ele no teria arranjado coragem para fazer o que faz, certa tarde, no caf da cidade: derrotar o valento Colosso no pebolim. Habilidade no falta a Amadeo  ningum o bate na mesa velhinha, com jogadores de madeira j meio descascados. O que lhe falta  esprito, confiana, uma crena no melhor. De certa forma, ele tem razo: sua vitria se provar fatdica. Enquanto os fregueses do caf festejam a surra que ele acaba de dar em Colosso, o diretor Juan Jos Campanella j vai juntando as metafricas nuvens negras no horizonte: Colosso nunca perdoar a humilhao. Ele ir, sim, embora da cidade. Mas voltar, anos mais tarde, para pisote-la, destru-la, reduzi-la a p. S que topar com a determinao de Amadeo e, surpresa, dos jogadores de pebolim, que ganham vida para somar seus esforos aos do pessoal da cidadezinha. 
     Premiado com o Oscar pelo drama O Segredo dos Seus Olhos e um dos motores do cinema argentino desde os anos 1990, com ttulos como O Filho da Noiva, Campanella faz com Um Time Show de Bola (Metegol, Argentina/Espanha, 2013), j em cartaz no pas, o que nenhum realizador da Amrica Latina tentou fazer antes: provar que, quase que s com animadores do continente, um oramento de 20 milhes de dlares (de um quinto a um dcimo do padro americano) e, claro, um roteiro muito apurado,  possvel fazer um desenho 3D que rivaliza em tcnica, arte e diverso com o que produzem estdios como Pixar ou Dream Works. Em entrevista a VEJA, Campanella, veterano tambm da TV americana, fala do que o levou a se aventurar no projeto, das dores de cabea  e alegrias  que este lhe deu e arrisca uma explicao para a solidez do cinema argentino. 

Cineastas de live action costumam sofrer quando se aventuram na animao, por ela ser to tenta e laboriosa. Confere? 
 como ficar vendo tinta secar. Um inferno de lento. Todo dia voc acorda e pensa: isto nunca vai acabar. Cada animador tem de produzir quatro segundos de animao por semana, e s vezes nem essa meta se alcana. Um diretor de live action arruma o set para uma cena de manh, e de noite est com ela na mo. Na animao, voc espera quatro meses para ver uma cena bruta, em preto e branco  e a vai ter de colorir, acrescentar as texturas e, claro, continuar coordenando o trabalho de 300 pessoas. O cineasta de animao tem de ser tambm psiclogo. 

Onde entra a psicologia? 
Para manter o moral da equipe. Nunca se havia tentado antes na Amrica Latina fazer um longa comercial de animao 3D realmente competitivo, e s vezes os prprios membros da equipe entravam em crise, achando que ramos loucos. Minha inspirao foi Beethoven, que comps a Nona Sinfonia j surdo e nunca ouviu o que estava criando. Durante trs anos, fiz um filme sem ter ideia de como ele ficaria, vendo-o s na minha cabea. 

Sua equipe de animadores  quase toda latino-americana e espanhola, e poucos haviam trabalhado num longa antes. De onde saram essas pessoas? 
Metade so argentinos, uma boa quantidade  de espanhis e o restante de vrios pases da Amrica Latina ou de outras partes do mundo. Animadores so meio ciganos. Geralmente so jovens e vo indo para onde o trabalho os leva. Esse pessoal trabalhava em publicidade, na internet. O que constituiu um desafio, j que era gente habituada a trabalhar sozinha e rebelde  colaborao e  organizao. Para todos ns, a curva de aprendizado foi bem acentuada. 

Com o filme pronto, o que lhe d mais satisfao? 
Pondo toda a modstia de lado, o fato de que ele demole o axioma de que s em Hollywood  possvel fazer uma animao assim. E o fato de que ele  um esforo regional. A animao  um formato ideal para promover esse tipo de avano, porque, por necessidade, trata de histrias muito universais e, como  dublada na lngua de cada pas, nunca  estrangeira para a plateia. 

O futebol no  popular nos Estados Unidos. O senhor teme pela recepo do filme l? 
Bom, nem eu me interesso muito por futebol, e fiz o filme. E dizer que Um Time Show de Bola  sobre futebol  como dizer que Casablanca  um filme de  guerra; o jogo  s o pano de fundo para um enredo sobre amizade e, em particular, sobre um homem a quem a vida apresenta um imenso desafio  e ou ele responde  altura ou desaparece. 

 tambm sobre poltica  sobre como  possvel resistir a arbitrariedades impostas na base da presso e da forca bruta. 
Sem dvida  um enredo sobre poltica - para os adultos da plateia. Mas no  um comentrio especfico sobre o atual governo da Argentina, a respeito do qual minhas objees so bem pblicas, e sim sobre a necessidade de refundar uma nao, uma comunidade ou a maneira de raciocinar quando os vcios j se tornaram arraigados demais para que se possa remedi-los. s vezes, acho, seria preciso comearmos de novo da estaca zero. 

O que torna o cinema argentino to consistente  e bom? 
Acho que se criou essa impresso porque o resto do mundo s v um a cada 100 filmes que fazemos. Mas, pondo a brincadeira de lado, o cinema argentino tem mesmo uma solidez atpica. Vou chutar: ela  um legado da imigrao italiana e judaica, ambas culturas com imensa tradio narrativa. A Argentina foi sempre riqussima em teatro, literatura e cinema. O que termina tambm por tornar a plateia mais exigente; quem l e vai ao teatro e ao cinema tende a ser mais crtico sobre o que v. Finalmente, o cinema americano deu as costas ao pblico adulto e deixou esse espao aberto para que cineastas de outros pases ganhem mais destaque. 

A TV americana, por outro lado, est numa fase soberba. O senhor tira a mesma satisfao de dirigir um episdio de sries como House ou Special Victims Unit que de fazer um filme? 
No, mas porque nesses seriados dirijo o roteiro que outro escreveu. E, para mim, a criao de fato est na escrita. Escrever e ento dirigir, seja no cinema ou na TV - isso, sim,  que d satisfao. E  porque hoje o roteirista  quem manda numa srie que a TV americana vai indo to bem. 


8#3 ARTE  CADA VEZ MAIS PERTO
A galeria de arte virtual do Google descobre o Brasil em oito museus e quase 700 obras, com direito a uma mostra especial de fotografia e uma visita aos jardins de Inhotim.
MRIO MENDES

     A partir desta tera-feira, o Brasil marca presena definitiva no acervo cultural disponibilizado on-line pela plataforma do Google Cultural Institute (google.com.br/culturalinstitute). Quatro instituies do pas passam a ter vrias de suas obras integradas  ecltica e rica coleo de arte apresentada no website: o paulista Museu da Imagem e do Som (MIS), a gacha Fundao Iber Camargo, o carioca Instituto Moreira Salles e o mineiro Inhotim  este o primeiro museu a cu aberto a entrar para a famlia artstica do gigante da internet. Na verdade, agora sero oito os acervos brasileiros, j que a parceria com o Google comeou timidamente no ano passado com a adeso inicial do MAM-SP, da Pinacoteca do Estado de So Paulo e dos museus do Futebol e da Lngua Portuguesa. 
     H dois anos, quando foi criado em Paris como uma iniciativa para divulgar material artstico e cultural relevante e torn-lo acessvel ao maior nmero possvel de pessoas (alm de preserv-lo digitalmente), o Cultural Institute passou a possibilitar aos que acessavam seu website uma visita virtual a dezessete galerias de alguns dos mais prestigiosos museus do mundo, entre os quais a italiana Galeria Uffizi e o russo Hermitage. O total era ento de 1060 obras, sendo que dezessete delas  uma de cada instituio parceira  podiam ser apreciadas em ampliaes de altssima resoluo. Algo como observar na tela  do computador, nos mnimos detalhes, um quadro do tamanho de um outdoor. Assim, as vigorosas pinceladas de Vincent van Gogh no clebre Noite Estrelada estavam ao alcance da viso tanto do leigo quanto do expert. 
     Corte rpido para 2013: o quadro do mestre holands, que exibe corpos celestes em movimentos circulares, ainda  usado pelo Cultural Institute como exemplo mximo de sua pirotecnia tecnolgica. Mas se h algo no qual a internet  prdiga so nmeros  e esses, fazendo jus ao apetite voraz do Google, dispararam. Hoje o visitante tem acesso a 300 instituies de 52 pases e a 53.000 obras de arte. Levando-se em conta que, agora, alm do Art Project, a plataforma inclui as colees Momentos Histricos (com fotos e documentos) e World Wonders (passeios virtuais por patrimnios histricos da humanidade, como a mineira Ouro Preto e o Palcio de Versalhes), a quantidade de itens disponveis atinge 6 milhes.  
     A essas cifras, o Brasil contribui com 693 obras e trs tours  vises panormicas em 360 graus que mostram o espao das salas de exposio e, no caso de Inhotim, permitem um passeio pelos jardins. Alis, um dos trs novos trabalhos brasileiros que podem ser observados em detalhes  a pintura sobre azulejos Celacanto Provoca Maremoto, que est no pavilho da artista Adriana Varejo na instituio mineira de arte contempornea. "Fazer parte desse projeto multiplica e expande o espectro do museu em escala global e, por isso, esperamos que seja tambm um estmulo a visitas presenciais", considera Rodrigo Moura, curador de Inhotim. 
     "Gosto de pensar que o nosso trabalho  um dos fatores que fizeram aumentar a visita aos museus internacionais nos ltimos dois anos", diz o brasileiro Victor Ribeiro, diretor global do Google Cultural Institute, em Paris. Ele chama ateno para a adeso crescente de novas instituies (apesar de ainda no ter sido vencida a resistncia de baluartes como o Louvre) e explica que cada uma faz sua prpria seleo de trabalhos para uma mostra especial destinada ao visitante on-line  como o Instituto Moreira Salles, que preparou uma exposio do fotgrafo pioneiro Marc Ferrez (1843-1923). "Estou fascinado com a viso ampliada de uma foto que mostra uma cena movimentada da Avenida Central, no Rio de Janeiro, em 1910", diz Ribeiro. Ele conta ter descoberto no instantneo histrico, entre outras coisas, que os operrios que faziam reparos na via no dispensavam o uso de chapu e palet, e que era mnimo o nmero de mulheres andando por l. 
     O aparato tecnolgico utilizado para capturar as imagens das obras de arte tambm evoluiu. Alm do trolley, um carrinho ao qual uma cmera de alta definio  acoplada, agora existe o trekker, uma espcie de mochila capaz de ir aonde a outra engenhoca no chega (um vdeo no site mostra uma sesso de captao de imagens na Casa Branca). Nada,  claro, substitui o prazer real de observar uma obra de arte ao vivo  mas, segundo Ribeiro, a plataforma compensa essa desvantagem com alguns prmios. "Os usurios podem inclusive escolher suas obras favoritas e formar uma galeria de arte." Melhor que isso, s ter as prprias penduradas na parede de casa. Para isso o Google no tem a soluo. Ainda. 


8#4 LIVROS  SIM,  POSSVEL
Da casa com cho de terra para a carreira executiva: Douglas prova que o trabalho ainda  o segredo do sucesso.

     Engraxate aos 7 anos, vendedor de frutas na estao de trem aos 10 e entregador de mercearia aos 11, estudando de noite (por deciso prpria) para poder trabalhar o dia inteiro  alm de boia-fria, cobrador de mensalidades de clube, desenhista de cartazes e garom de festas (circulou bandejas na prpria formatura do colgio) , o garoto Douglas Duran se viu, l pelos 16 anos, trabalhando como aougueiro. Suas obrigaes incluam sair de madrugada, a cavalo, para procurar uma vaca pelos stios e fazendas das redondezas de Poloni, a cidade do interior paulista em que morava nessa poca, e ento conduzir o animal, abat-lo e esquartej-lo. No era bem o que o rapaz "pobre, pobre mesmo", como ele diz  e muito empreendedor , desejava para seu futuro. Ensina ele, ento: "A melhor forma de se livrar de um trabalho com o qual voc no se identifica , paradoxalmente, execut-lo da melhor forma, pois assim voc cria condies para dar um passo adiante". O passo seguinte, nesse caso, foi inusitado: de tanto conhecer criadores de gado, Douglas virou peo de boiadeiro  por trs dias apenas, mas dias memorveis. O lugar para onde a soma dos seus passos afinal o conduziria, entretanto,  ainda mais inesperado:  o Grupo Abril (que publica VEJA), onde ingressou em 1978 e hoje, aos 60 anos, exerce as funes de vice-presidente de Finanas e CEO da holding de logstica DGB. Esse trajeto, da casa com cho de terra que dividiu com a me e a irm nos tempos de maior penria, quando o alcoolismo do pai j pulverizara as expectativas de conforto modesto da famlia, para os cargos executivos em um dos maiores grupos empresariais do pas,  o que ele descreve em Douglas (Insular; 256 pginas). 
     Descreve, apenas, no: comenta tambm, recordando a tenacidade da me e seu rigor tico e moral, o entusiasmo com que se lanou mesmo nas tarefas que outros considerariam aborrecidas, a importncia de ter sonhos e trabalhar (e estudar) duro por eles, o valor da ambio. No a variedade mais corriqueira da ambio, a de acumular fortuna, mas sim aquele desejo de avanar, superar-se, realizar-se, contribuir. Douglas, o livro, vem impulsionado pela vontade de falar com os filhos (dois, adultos, do primeiro casamento, e dois, pequenos, da segunda unio) e deixar a eles um mapa de si mesmo. Mas no  s a eles que o autor transmite seus princpios;  a toda uma nova gerao que comea a abrir seu caminho e que, no Brasil em particular, nem sempre tem muita certeza sobre o poder que h em construir-se por mrito prprio  ou no imagina que esses fatores, dedicao e mrito, bastem para transformar a sua vida e a dos outros. Com seu jeito agradvel de escrever e retraar sua trajetria, Douglas prova que essa no  uma possibilidade que ficou para trs, no Brasil dos anos 1960 e 1970.  e ser sempre a melhor alternativa, e a mais duradoura e gratificante. 
ISABELA BOSCOV


8#5 MSICA  DYLAN EM TODOS OS CANAIS
Um inovador vdeo de Like a Rolling Stone mostra o clssico do rock em dezesseis inusitadas (e sincronizadas) verses.

     Imagine sintonizar a televiso num game show e flagrar o apresentador entoando Like a Rolling Stone, de Bob Dylan. E ento mudar para um canal de esportes e ver tenistas cantando a msica a partir do exato ponto em que estava sendo recitada pelo apresentador. A situao se repete por outros catorze canais  entre eles um programa jornalstico, um videoclipe do rapper Danny Brown e uma apresentao ao vivo do jovem Dylan. Lanado na internet como pea de divulgao de uma caixa com 47 CDs do cantor e compositor americano, um vdeo interativo dirigido pelo israelense Vnia Heymann oferece a curiosa experincia de ver a voz fanhosa de Dylan espalhar-se pela televiso. Foi a estreia de uma tecnologia criada pelo roqueiro e nerd confesso Yoni Bloch  uma plataforma chamada Interlude, que permite a sincronizao perfeita dos dezesseis vdeos. Foram escolhidos canais que refletissem "a alma da televiso americana", a mesma que Dylan acusou de "destruir a famlia" na cano TV Talkin' Song. Os personagens so de fato figuras consagradas da TV. "Em alguns casos, criamos modelos com cenas do programa original, para orientar os apresentadores na hora de cantar", diz Heymann. Curiosidade: a nica falha de sincronia entre o movimento labial e a cano  do prprio Dylan, por um defeito do filme feito pelo cineasta D.A. Pennebaker em 1966. Eleita pelo crtico Greil Marcus o melhor rock de todos os tempos, Like a Rolling Stone  agora o clipe mais original do sculo XXI. 
SRGIO MARTINS


8#6 VEJA RECOMENDA
LIVROS
A BATALHA DO AVA, DE LILIA MORITZ SCHWARCZ (SEXTANTE; 174 PGINAS; 150 REAIS)
* Muito j se comentou sobre a fidelidade histrica e as intenes por trs da tela Independncia ou Morte, uma alegoria pica do Grito do Ipiranga (que libertou o Brasil de Portugal) executada pelo pintor Pedro Amrico (1843-1905). Mas uma obra anterior do mesmo artista, A Batalha do Ava  realizada entre 1872 e 1877, em Florena, na Itlia , revela-se muito mais ambiciosa e repleta de conotaes polticas de sua poca.  o que a autora, com a colaborao de Lcia Klck Stumpf e Carlos Lima Jnior, explora ao misturar narrativa histrica e observao plstica. Confronto decisivo da Guerra do Paraguai (1864-1870), o maior conflito blico da histria do Brasil, a Batalha do Ava  considerada o apogeu e o incio da decadncia do Segundo Imprio. A tela de 50 metros quadrados  exposta no Museu de Belas Artes, no Rio de Janeiro  mostra o ocorrido em dezembro de 1868 conforme a viso dos vitoriosos: brasileiros valentes e heroicos de um lado, paraguaios brbaros e vis do outro. Uma anlise dos papis assinalados pela histria que se faz oportuna nestes dias de embates partidrios intensos e discusses polticas apaixonadas.

1Q84  LIVRO 3, DE HARUKI MURAKAMI (TRADUO DE LICA HASHIMOTO; ALFAGUARA; 469 PGINAS; 49,90 REAIS)
* Embora seja um romano nico, 1Q84 chegou ao Brasil em prestaes, tal como se deu no Japo, pas natal de Haruki Murakami, onde a obra foi lanada ao longo de dois anos. O leitor que comeou a se enfronhar no estranho passado alternativo construdo por Murakami no ano passado, quando saiu o primeiro tomo, agora pode finalmente acompanhar o esperado reencontro da implacvel justiceira Aomame e do obscuro escritor Tengo. E aqueles que ainda no comearam a leitura podem entrar de cabea na obra integral: a editora Alfaguara tambm est lanando uma caixa com todos os trs tomos, ao preo econmico de 119,90 reais. Vale a pena: Murakami, de 64 anos,  um dos autores mais imaginativos da literatura contempornea. O delirante universo alternativo de 1Q84 inclui um cu noturno com duas luas, uma sinistra seita poltico-religiosa que assombra os protagonistas e um misterioso Povo Pequenino capaz de grandes malfeitos. Murakami disciplina essas invenes endoidecidas com uma construo habilidosa do enredo e dos personagens  a comear pelos solitrios mas cativantes Aomame e Tenso.

DVDs
A NOITE DOS DESESPERADOS (THEY SHOOT HORSES, DON'T THEY?, ESTADOS UNIDOS, 1969. NEW LINE)
 Nos anos 1930, a penria da Depresso americana engendrou o gosto por um outro tipo de misria: a humana. No filme de Sidney Pollack,  o que faz com que os espectadores paguem para, da arquibancada de um salo, ver gente danando s vezes literalmente at a morte em uma maratona bizarra. E maratona  um eufemismo plido para o que se passa na pista: casais extenuados, arrastando-se por semanas seguidas com apenas dez minutos de intervalo a cada duas horas, em busca de um prmio em dinheiro ou da ateno de algum figuro do cinema na plateia.  o desespero em estado puro, personificado em quatro casais: incitados pelo inescrupuloso mestre de cerimnias vivido por Gig Young, Jane Fonda  abrasiva como nunca  e Michael Sarrazin so estranhos que se unem para a ocasio; Red Buttons e Allyn Ann McLerie so um velho marinheiro e sua parceira tambm de meia-idade; Bruce Dern e Bonnie Bedelia no desistem, apesar da gravidez avanada dela: e Robert Fields e Susannah York sonham com um papel em Hollywood. O clima  decididamente pessimista e o final, trgico. 

MSICA DA ALMA (THE SAPPHIRES, AUSTRLIA, 2012. PARIS)
 As irms Gail, Cynthia e Julie cantam que  uma beleza, mas ningum quer saber de ouvi-las: elas so aborgines, e a Austrlia de 1968  franca e assumidamente racista. Depois de uma apresentao desastrosa no povoado a meio caminho do fim do mundo onde elas moram, as trs saem estrilando  e, conversa vai, conversa vem, ganham um "empresrio": o tecladista sem eira nem beira que as acompanhara no palco. Dave (Chris O'Dowd, uma simpatia), porm, impe duas condies. Que elas parem de cantar country e enveredem pelo soul da Motown, sua paixo. E que topem ir fazer shows no Vietn, entretendo as tropas americanas. Kay, uma prima das trs que se passa por branca, junta-se a elas e faz do trio um quarteto: The Sapphires, ou "as safiras". No s as meninas so mesmo umas jias (em especial Deborah Mailman, que faz Gail, a irm mais velha e mais mandona, e  um vulco). O filme em si  que nasceu como uma pea de sucesso na Austrlia, criada a partir da histria da me do roteirista Tony Briggs   uma delcia do comeo ao fim. Ou seja, desde a trilha, que com esse repertrio no poderia deixar de ser sensacional, at as interpretaes, o senso de humor e a exuberncia.

DISCO
MECHANICAL BULL, KINGS OF LEON (SONY)
* Dois anos atrs, durante uma apresentao em Dallas, Caleb Followill, guitarrista e vocalista do Kings of Leon, sofreu uma crise nervosa. Ele anunciou que iria dar um pulo no camarim e simplesmente no retornou para terminar o show. Na mesma temporada, o quarteto cancelaria as 26 datas da turn e passaria por um momento de recluso. O incidente levantou dvidas sobre o futuro da banda. Mechanical Bull, o mais recente disco do Kings of Leon, mostra que a pausa foi at benfica. Caleb domou alguns de seus demnios  em especial o alcoolismo , e as novas canes apuraram as duas especialidades do grupo. Primeiro, o rock de garagem sujo e rido, presente em seus trs primeiros discos e aqui representado por Supersoaker e Rock City. Segundo, as msicas tpicas de estdio, que tomaram o lugar do minimalismo "garageiro" a partir de 2008, quando a banda emplacou nas paradas composies como Use Somebody. Os hits de rock de arena de Mechanical Bull atendem pelo nome de Tonighi e Comeback Story. 


8#7 OS LIVROS MAIS VENDIDOS
FICO
1- A Culpa  das Estrelas. John Green. INTRNSECA
2- A Esperana. Suzanne Collins. ROCCO
3- Jogos Verazes. Suzanne Collins. ROCCO
4-  A Casa de Hades. Rick Riordan. INTRNSECA
5- Teorema Katherine. John Green. INTRNSECA
6- Inferno. Dan Brown. ARQUEIRO
7- Em Chamas. Suzanne Collins. ROCCO
8- Cidades de Papel. John Green. INTRNSECA
9- O Silncio das Montanhas. Khaled Hosseini. GLOBO
10- A Cinquenta Tons de Cinza. E.L. James. INTRNSECA

NO FICO
1- Nada a Perder 2. Edir Macedo. PLANETA DO BRASIL
2- 1889. Laurentino Gomes. GLOBO
3- Kardec - A Biografia. Marcel Souto Maior. RECORD
4- Corta pra Mim. Marcelo Rezende. PLANETA
5- Sonho Grande. Cristiane Corra. PRIMEIRA PESSOA
6- Eu Sou Malala. Malala Yousafzai. COMPANHIA DAS LETRAS
7- Carlos Wizard - Sonhos No Tm Limites. Igncio de Loyola Brando. GENTE
8- 1808. Laurentino Gomes. PLANETA
9- 1822. Laurentino Gomes. NOVA FRONTEIRA
10. Guia Politicamente Incorreto da Histria do Mundo. Leandro Narloch. LEYA BRASIL

AUTOAJUDA E ESOTERISMO
1- Kairs. Padre Marcelo Rossi. PRINCIPIUM
2- Eu No Consigo Emagrecer. Pierre Dukan. BEST SELLER
3- O Mtodo Dukan - Eu No Consigo Emagrecer. Pierre Dukan. BEST SELLER
4- O Encontro Inesperado. Zibia Gasparetto. VIDA & CONSCINCIA
5- Eu Me Chamo Antonio. Pedro Gabriel. INTRNSECA
6- Casamento Blindado. Renato e Cristiane Cardoso. THOMAS NELSON BRASIL
7- O Crebro de Alta Performance. Luiz Fernando Garcia. GENTE
8- Receitas Dukan. Pierre Dukan. BEST SELLER
9- O Monge e o Executivo. James Hunter. SEXTANTE
10- Crianas Francesas No Fazem Manha. Pamela Druckerman. FONTANAR 


8#8 ROBERTO POMPEU DE TOLEDO  BENDITA DERRUBADA
     A derrubada do viaduto da Perimetral, no Rio de Janeiro, equivale a tirar uma tampa sobre a histria da cidade e, por extenso, sobre a histria do Brasil. Desde 1958, quando foi plantado  beira-mar, em pleno corao da cidade, o intruso lanou sua sombra sobre a antiga Casa do Trem (depsito do arsenal blico), hoje sede do Museu Histrico Nacional, e cortou a relao da Igreja da Candelria e do solar de Grandjean de Montigny, hoje Casa Frana-Brasil, com o mar. No local que j se chamou Terreiro do Carmo, depois Largo do Pao e, finalmente, por desgnio (e vingana) dos vitoriosos de 1889, Praa Quinze de Novembro, o estrago foi maior. O monstrengo insinuou-se no territrio em que convivem o Pao Imperial, no qual residiram e despacharam dom Joo VI e os Pedros I e II; a Igreja do Carmo, que por mais de um sculo serviu de catedral, e o respectivo convento; o Chafariz do Mestre Valentim e o Arco do Teles  monumentos que compunham o cenrio de onde emanava o poder durante os perodos colonial e imperial. A praa prolongava-se at o mar, debruando-se sobre o antigo cais Pharoux e a Estao das Barcas. No mais. A sinistra via elevada veio a fati-la, como ocorreria a uma sala de visitas em cujo centro se erguesse um tabique  
     Uma primeira parte do viaduto da Perimetral  a que corre sobre a Avenida Rodrigues Alves, junto  Zona Porturia  foi implodida na semana passada. O trecho que passa pelo centro no poder ser posto abaixo pelo mesmo mtodo, dado o perigo de abalar a estrutura das edificaes histricas; ser desmontado, numa prxima etapa. A deciso de desativar o viaduto representa um ponto de inflexo no modo de gerir as cidades no Brasil. At onde a vista alcana, foi o mais decisivo golpe na ideia, h tantos anos prevalecente, de que a prioridade das prioridades das administraes municipais  facilitar a circulao dos carros. De quebra, representa um desafio ao tabu de que obra pblica to grande e cara no deve ser destruda. As vias elevadas, to em moda nos anos 1950-1960, constituem um caso particularmente danoso da ideologia de opo preferencial pelos carros. Ao pairarem sobre extensas reas edificadas, lanam  maldio da sombra o que lhe fica embaixo, provocando-lhes a degradao e convidando ao crime. Em seguida  imploso da semana passada, as mais eloquentes manifestaes de jbilo eram pelo fato de o sol ter voltado  Avenida Rodrigues Alves. Ganhar de volta o sol, para um trecho de cidade, equivale a ganhar a liberdade para um preso. 
     Impor barreiras no tecido urbano  outro efeito das vias elevadas. Num belo texto jornalstico datado dos idos de novembro de 1889, o escritor Raul Pompia descreveu, postado a uma janela do ainda Largo do Pao, a sada da deposta famlia real rumo ao exlio. Eram 3 da madrugada quando, primeiro, "duas senhoras de negro, cobertas de vu", em seguida os demais, deixaram o pao e subiram "num coche negro, puxado a passo por dois cavalos, que se adiantavam de cabea baixa, como se dormissem andando". O coche venceu os poucos metros at o cais Pharoux. "' aqui o embarque?', perguntou uma das senhoras de preto aos militares." Quando o carro parou, dom Pedro II apeou "para pisar pela ltima vez a terra da ptria". Pompia, mesmo quela hora da madrugada, divisava a praa inteira, de seu ponto de observao. Houvesse  poca, por absurdo, um viaduto a trancar-lhe a continuidade, e seu relato ficaria pela metade. 
     A derrubada da Perimetral vai devolver a integridade  Praa Quinze de Novembro. Considerada a regio central como um todo, vai integrar num corredor cultural stios e monumentos histricos hoje impedidos de falar uns com os outros. Consta ainda do projeto a implantao de um extenso e largo passeio  beira-mar. Tudo somado, a maior barreira que cair junto com o viaduto  a que ele projetou entre a cidade do Rio de Janeiro e a Baa de Guanabara. Uma  a razo de existir da outra. No existiria a cidade se naquele lugar no houvesse a baa. E no seria a baa to conhecida e celebrada se no tivesse uma cidade s suas margens. Da, mais do que de qualquer outro fator, se evidencia a maligna excrescncia representada pela via area assentada entre uma e outra. De resto, para o colunista que nasceu e vive em So Paulo, sobra a inveja. Quando teremos nesta ponta da Via Dutra um dirigente com coragem de derrubar o Minhoco? 


